Postado em 25 de Maio de 2016 às 09h22

    Filhos e Drogas: Um problema que precisa ser olhado com carinho

    Psicologia Adolescente (19)

    Costumo encontrar em meu consultório, pais perguntando sobre “sinais” de que os filhos podem estar utilizando drogas.

    Erroneamente, muitos desses pais sequer se questionam quando ocorrem situações de distanciamento afetivo dos filhos para com eles. Preferem entender este como sendo um processo natural do desenvolvimento adolescente. A busca de novos referenciais e algum isolamento dos pais são de fato necessários para a elaboração da identidade do futuro adulto, mas apenas até certo ponto.

    Distanciamentos afetivos, de modo geral, requerem um olhar mais atento por parte dos pais e merecem maior atenção quando conjuntamente surgem mudanças importantes de personalidade e comportamento. Exemplo: Quando aparecem retraimentos espontâneos, dificuldades e mesmo falta de vontade de conviver com a família e com amigos que sempre costumaram ser referências fraternas. Quando as festas sociais e familiares ficam determinantemente fora de cogitação. Tudo isso ocorre de modo sutil, porém, em determinado momento um quadro maior vai se delineando e os pais podem perceber o filho mais próximo de um estranho do que de alguém com quem mantiveram contato desde o nascimento.

    Outro fator de relevância são as altas jornadas de sono ao longo do dia e o uso freqüente da desculpa sobre o excesso de cansaço ser devido às atividades do dia-a-dia ou mesmo pelas baladas noturnas. Essas situações devem ser observadas pelos pais pelo bom senso somado aos dados de realidade. Verificar se o jovem prefere passar horas a fio trancado dentro do quarto ou banheiro também pode ser algum sinal de que algo pode estar fora do prumo.

    Carlos diz que a idéia era a de buscar mais e mais sensações de prazer. Por um momento, esqueceu-se daquilo que o impulsionou para este tipo de jornada: a angustia pelo vazio interior enorme e sem nome. Foi a facilidade de se obter tudo. Foi a ausência de autopresença em sua própria vida, somada ao desvalor e à rapidez que este império sedutor em que vivemos nos traz.

    Vivemos permeados por situações de conquistas importantíssimas, mas que duram apenas um ínfimo momento. É deste modo que a vida em si vai perdendo a sua própria dimensão e valor. Tudo fica raso e sem sentido.

    Então a busca passa a ser frenética, perseguindo-se um sentido que dê significado. Na maioria das vezes a angústia faz com que se procure o caminho mais rápido e fácil, o que infelizmente não provoca o verdadeiro encontro consigo mesmo. Ao contrário, retira mais e mais o prazer de se estar vivo, enterrando cada vez mais a possibilidade de poder viajar saudavelmente na imaginação, projetando e criando situações para conquista e crescimento pessoal.

    O que ocorre é a perda da linha do tempo tanto para o passado, como para o futuro. Perde-se a validade sagrada do momentum vívido.

    A grande questão fica na linha divisória do que pode ser entendido dentro de um padrão de normalidade ou de alguns tipos de comportamentos que podem servir como fortes sinalizadores de que algo de muito errado pode estar ocorrendo secretamente na vida de seu filho. Os sinais surgem e os pais devem ficar atentos aos movimentos e atitudes que antes não faziam parte da rotina e da estrutura de personalidade dos filhos.

    Dependendo do tipo de droga utilizada, poderá ocorrer a diminuição drástica do apetite e ate sensações de enjôo ou mesmo vômitos.

    Também se torna recorrente o esquecimento de palavras durante as frases.

    Sabemos que o adolescente está em constante transformação e que todo este caminho mutante serve de experimentação para a jornada adulta que a sucede. Por isso mesmo é que os pais devem estar presentes, entendendo os processos de mudanças fundamentais, mas em momento algum se dispersando de uma visão mais acurada e amadurecida em relação aos filhos. Atentando inclusive para não relevarem as percepções por mais sutis que possam parecer em relação as atitudes diferentes do usual que seu filhos possam estar tendo.

    Denunciar para si próprios de que algo pode não estar caminhando bem em relação aos próprios filhos pode incomodar profundamente todo e qualquer tipo de ideal dos pais, negá-los, porém num futuro não distante, pode trazer uma dor que muitas vezes torna-se irrecuperável.

    E muitos pais, na sala ao lado, continuam vendo televisão...

    Por Ieda Dreger

    Veja também

    Filhos que mandam e pais que obedecem?25/05/16 A responsabilidade de educar filhos é intransferível, ainda que algumas pessoas busquem fazê-lo. Mas o outro que vem cuidar é um substituto, nunca um pai. E as próprias crianças compreendem isso quando dizem: “você não é meu pai (mãe), você não me manda” Um substituto recebe dos pais as informações......
    Avós não substituem os pais24/05/16 A diferença de gerações faz ao avós tratarem os netos com condescendência. Meu marido recebeu uma ótima proposta para trabalhar no exterior, mas meus filhos, de 11 e 14 anos, se recusam a mudar. Deixa-los com os......

    Voltar para Blog