Postado em 24 de Maio de 2016 às 15h02

    Frígida, Eu?

    Sexualidade (13)

    A frigidez é a negação da sexualidade no seu sentido mais amplo e erótico. É um estado de falta de interesse e incapacidade geral da busca pelo prazer. O principal nesse discurso é entender esse conceito e conseguir resgatar essa perda, não negando o sexo propriamente dito, mas valorizando e muito as outras relações de prazer.

    A mídia e as amigas estão sempre passando um padrão de sexualidade, principalmente feminina, que nos deixam confusas, atônitas ou mesmo complexadas. 

    As cobranças ficam ainda mais intensas quando o relacionamento por diversos motivos, não necessariamente sexuais, está desconfortável ou insatisfatório. Então acontece algo devastador para a auto-estima, que é a idéia de "...eu tenho problemas..."

    Atualmente o termo frigidez é comumente ligado a toda e qualquer insatisfação na vivência sexual: falta de desejo, afastamento da busca do prazer e ausência de orgasmo integram o cotidiano de quem enfrenta a frigidez.

    Antes focada apenas na falta de orgasmo, a frigidez, atualmente, é entendida num sentindo mais amplo, abrangendo as disfunções sexuais ligadas à falta de prazer e de desejo.

    Na frigidez, a mulher tem a falta de Eros. Ou seja, na tradição mitológica grega, a figura de eros é o deus grego do amor, que é também princípio de alegria, de vida e de prazer. Daí foi originada a palavra erotismo, que teve conceito deturpado ao longo dos tempos, sendo colocada apenas nas questões ligadas ao sexo propriamente dito. A pessoa frígida tem um curto-circuito não apenas na sua relação com o sexo, mas também em vários aspectos da sua vida.

    Por sermos indivíduos plurais, várias causas podem colaborar na frigidez feminina. Uma delas refere-se à educação. Muitas mulheres têm a concepção de que é o homem quem deve comandar a relação, sendo ela apenas um agente passivo. Contudo, sexo é troca de prazer. Se ela pensar assim, será frígida culturalmente. Já no sentido da religião, o sexo geralmente está associado à culpa e ao pecado. Culpa da religião? Não, com certeza. E sim de como o pecado e a pureza foram interpretados na evolução da história, correspondendo a uma cobrança da sociedade. Outro aspecto importante é a relação com a mãe. Se a filha teve uma relação de afetividade pobre com a mãe, se vê a mãe como uma pessoa infeliz ou passa uma mensagem de que o sexo não é necessário.

    É como se a mulher não pudesse ter esses dois papéis, de amante e de mãe. A mulher se liberou em todos os aspectos, intelectualmente. Porém, os valores que colocam a sexualidade feminina numa posição crítica ainda estão embutidos na sociedade ocidental. Além da falta de desejo, creio que o afastamento da busca do prazer e dificuldade de entrega total são os aspectos mais graves. Porque com certeza atingem outras áreas de desempenho, empobrecendo a vida e reduzindo as possibilidades de realização.

    A frígida, de uma maneira geral, nega o merecimento do gozo no inconsciente.
    Entre as causas orgânicas da frigidez estão doenças crônicas como diabetes, problemas neurológicos e depressão. Mas nada disso teria importância se um cuidado especial para alimentar o ego de energia vital, desejos e sonhos, projetos de vida, uma dupla que se comunica na sua essência, que acabam por compensar e permitem que esse obstáculo seja transposto. Não nego que existem situações críticas, traumáticas que têm repercussão na sexualidade. Porém, creio firmemente - e a vivência clinica confirma - , que as causas menores que acarretam disfunções sexuais femininas, quase na sua totalidade emocionais, são em grande parte calcadas em fatores de fácil remissão.

    Basta que para isso exista o firme propósito de gozar e viver sua sexualidade com entrega total, desmistificando uma visão idealizada que tem espaço ainda para o homem perfeito, quase o inatingível príncipe encantado. A mulher deve atuar na busca sexual e reconhecer o seu desejo, com atitude frente ao próprio desejo e dizer para si mesma: eu quero, eu desejo, eu vou gozar. O casal não deve ir para o ato sexual pensando somente no pênis e na vagina. Outros elementos, como os toques, um bom perfume, uma música e outros aspectos que desenvolvam a sensorialidade, beleza e atitude devem ser valorizados. O processo terapêutico no reforço da auto-estima, da feminilidade, de orientação e educação sexual, portanto, uma abordagem mais educativa e de desvelar mitos é o que mais ajuda e facilita nessa busca. Não adianta querer encontrar uma fórmula milagrosa para proporcionar mais desejo, excitação e o tão almejado orgasmo. O segredo está na nossa cabeça. Isso mesmo. As causas da dificuldade da mulher em atingir o clímax são psicológicas e não físicas.

    O que fazer, então, para chegar lá? É preciso aprender, antes de tudo, a não se cobrar tanto. Pensamentos e preocupações como "tenho de conseguir" ou "o que há de errado comigo?" só atrapalham, ainda mais quando invadem nossa cabeça bem na hora ´H´. Ou seja, é preciso deixar as cobranças de lado e responder apenas ao nosso instinto mais primitivo e natural, o desejo, a fome. Outro importante aspecto é ficar o mais à vontade possível com o próprio corpo: conhecer os pontos de prazer e não sentir vergonha ou inibição de se tocar. É preciso também ter coragem de mostrar ao parceiro do que você mais gosta ou não na hora do sexo. Tudo isso é importante para que o prazer seja cada vez maior. Orgasmo é uma questão de liberação, aprendizado e de treino. A ciência evolui rapidamente, claro, e hoje já se pesquisa na Europa alguma droga capaz de interferir no prazer feminino. Mas são estudos iniciais e podem levar muito tempo para serem concluídos. O melhor a fazer? Vencer o tabu, acabar com as cobranças internas, dividir com o parceiro os seus desejos e as suas expectativas e, se necessário, buscar a ajuda de um especialista.


    Por Ieda Dreger. 

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