Postado em 24 de Maio de 2016 às 11h24

    Afinal, quem deve mudar?

    Casais (31)

    Uma das questões com que sou confrontada frequentemente na terapia de casal diz respeito às mudanças. Claro que quase todas as pessoas que buscam terapia de casal buscam também mudanças, geralmente do outro. Mas também é claro que os anos de vida em comum trazem alguma desesperança em relação as capacidades de mudança do cônjuge.
    Ouço diversas vezes questões como: “Valerá a pena investir na terapia de casal se ninguém muda de personalidade?” Ou “Ele(a) não vai mudar, não é?”, ou ainda “ela nem vai querer mais fazer terapia”. Sim, é impossível mudar o cônjuge, a não ser que ele queira, mas qualquer pessoa é capaz de implementar mudanças, às vezes ela própria, no sentido de salvar a sua relação. A pessoa de quem gostamos não deve ser forçada a mudar de personalidade em função das nossas exigências – até porque nenhum de nós suportaria ser confrontado com tamanho pedido.
    E se um casal reconhecer que se ama mas for incapaz de chegar a um consenso? E quando as discussões tomam conta do quotidiano de duas pessoas que assumem que gostam muito uma da outra? Alguém tem de ceder? Quem tem razão? Quem deve mudar? E o que deve e pode ser alterado? Qualquer profissional desta área vai perceber que na maioria dos casos o problema é diferente daquele que é apresentado pelo casal. Por exemplo: às vezes um casal relata crises imensas com xingamentos e palavras baixas, talvez este não seja o verdadeiro problema, que por trás deste fato o que realmente acontece é a falta de atenção de um para com o outro, o que faz com que gritem. Ao terapeuta de casal compete ajudar aquelas pessoas a reconhecer que, há dificuldades de comunicação que poderão estar impedindo-os de olhar para “o problema” da forma clara. E que forma é essa? Aquela que permite reconhecer as necessidades de cada um dos membros do casal, as emoções por detrás dos momentos de tensão. A raiva é o sentimento que comumente mostramos quando nos frustramos e discutimos com a pessoa que amamos. Mas a raiva é, de um modo geral, apenas a ponta do icebergue.
    Quando nos sentimos inseguros, quando achamos que o nosso companheiro não está colocar-nos em primeiro lugar, nos sentimos desamparados e nos irritamos. Ora, esse desespero é muitas vezes evidenciado sob a forma de críticas, acusações, birras. Se a situação for pontual, o nosso cônjuge verá além da birra e vai compreender que precisamos de conforto; mas se as inseguranças forem regulares, irá se instalar facilmente um ciclo vicioso em que há um que desesperadamente tenta chamar a atenção (ainda que de forma errada) e outro que vigorosamente procura acalmar o ambiente (fugindo da discussão ou ignorando o cônjuge).
    Todas as relações afetivas e particularmente as relações amorosas incluem questões básicas como “Você precisa de mim?”, “Sou importante para ti?” e “Posso contar contigo/ confiar em ti?”. Para que nos sintamos seguros precisamos saber que a pessoa que amamos recorre a nós, precisa de nós em termos afetivos, mostra-nos regularmente e de forma clara que somos especiais e que podemos confiar nela. Quando algum destes pilares se fragiliza, sentimos medo, reclamamos (tantas vezes da pior maneira) e, à medida que o cônjuge se afasta, sentimo-nos progressivamente menos esperançados de que o amor seja recuperável e “gritamos” ainda mais.
    Na terapia de casal, e em função das dificuldades específicas de cada casal, ambos precisam mudar. Ambos precisam alterar uma parte dos comportamentos, sem que isso implique que se anulem e/ou que deixem de ser quem são. Mas aquilo que muda mais drasticamente é, de um modo geral, a definição dos problemas. Quando cada um é capaz de olhar para o comportamento do outro e identificar o que aquele comportamento quer dizer, em vez de apenas se esquivar, xingar, não gostar, etc, o ciclo vicioso quebra e a conexão recomeça.
    É importante que quem está magoado ou se sentido de lado seja capaz de perceber o que o está magoando e possa dizer isso abertamente ao outro e que o outro também esteja aberto a perceber o que pode melhorar. Ou seja, a mudança precisa ser dos dois.
    Tem uma frase que gosto muito que diz: “nada muda se você não mudar”. Sim, se o outro não quer mudar, comece mudando você, busque terapia você, veja o que você pode fazer para ajudar o outro que não quer, a princípio, fazer nada.

    Por Ieda Dreger. 

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