Postado em 23 de Maio de 2016 às 17h28

    Separação, é possível renascer da dor

    Casais (31)

    Terminar um casamento é sempre difícil, mesmo para quem toma a iniciativa. Mas dependendo de sua atitude, a ruptura pode trazer um enriquecimento pessoal e outras coisas muito boas.
    Tenho percebido em meu consultório, que esse assunto tem sido abordada em muitos relacionamentos. Muitas pessoas perdem anos arrastando um casamento ruim, que já se acabou, adiando o rompimento por falta de coragem.
    Uma ruptura não ocorre de uma hora para outra, muitos pacientes me perguntam quais os sinais de que essa ruptura está prestes a acontecer. Um dos sintomas mais decisivos é a falta de sexo no casamento. As pessoas tentam negar que está acontecendo, enganam se dizendo que a cama não é tão importante. Mas, sem este contato, a emoção, o tesão e a intimidade dão lugar ao hábito e a solidão a ponto de um começar a ter aversão pelo outro. Os parceiros não conversam mais, não sorriem juntos. Seu amor vira hábito, é o começo do fim.
    Sabemos também que homens e mulheres vivem de modo diferente a ruptura amorosa. Isso se deve ao fato de que ainda existe uma forte mentalidade patriarcal. Os meninos são estimulados a se afastar da mãe muito cedo; crescem tentando negar que dependem de uma mulher. Quando viram adultos, constroem aquela imagem do durão que não quer casar. Porém, numa relação duradoura, ficam dependentes e, no caso da ruptura, sentem-se desamparados. Por isso, é muito raro um homem propor a separação.
    Nos meus anos de consultório, nunca vi um que tomasse tal iniciativa para viver sozinho; isso só acontece se ele já estiver com uma namorada. Já a mulher é emocionalmente forte porque, na infância, teve a mãe por muito mais tempo. Não raro, se a relação amorosa não vai bem, ela perde o tesão também antes do homem e prefere se separar e viver sozinha a insistir num casamento insatisfatório. Uma outra forma de perceber essa diferença é a de que a mulher é capaz de sentimentos profundos e ainda apegada ao amor romântico enquanto o homem ama menos do que a mulher mas sofre mais na hora da ruptura. Fica perdido com a perda da rotina e do convívio com os filhos, que, em geral, permanecem com a mãe. O pai terá que se esforçar para vê-los e vai lidar com a questão material, com a pensão, a propriedade e outros.
    Então, que motivos colaboram para o fim das relações? A causa principal é o modelo errado do casamento simbiótico, em plena idade adulta, muitas pessoas ainda querem em reeditar a fusão tipo “mamãe e filho” no relacionamento e nossa cultura incentiva esse equívoco. O homem é mais dependente da mulher, mas, por outro lado, sempre teve mais facilidade para arrumar relações extraconjugais. Muitos se acomodam em um casamento morno e ficam nessa lengalenga porque, se o sexo não é bom, resolvem a questão fora de casa, em vez de tentar resolver os problemas em casa.
    Podemos abandonar, ser abandonados, ou entrar num acordo de separação. A reação masculina ao abandono é mais violenta que a feminina, pois o marido, em muitos casos, imagina que a esposa é parte do seu império. Mesmo quando é a mulher que sugere a separação, não signifique que sairá ilesa. É duro quebrar os vínculos. Se os dois desejam a ruptura, o trauma é menor. O abandono é sempre mais difícil, porque reedita todas as rejeições que a gente já sofreu ao longo da vida. O problema é que o amor romântico é regido pela impossibilidade: se o outro não te quer, você se apaixona mais ainda. Aí surge a mágoa, a pessoa se sente jogada fora, fica com auto-estima abalada.
    Então como superar a dor de ser abandonada por causa de outra mulher? É fundamental perceber que a troca não quer dizer que você não seja digna de amor nem que seja inferior a outras, apenas que ele encontrou alguém que pode satisfazer algum anseio dele naquele momento. Talvez você se desespere, a dor é real e séria, mas ficará insuportável se duvidar de sua capacidade de amar e ser amada. No início, o baque é inevitável. Mas há inúmeros casos em que a ruptura revela-se benéfica. A separação pode promover o renascimento, tudo dependerá de sua visão de mundo. Nenhuma mulher deve se sentir desvalorizada só porque está sem um companheiro, o importante é desenvolver a habilidade de ser feliz sozinha. Se você tem amigos, projetos de vida e de trabalho, liberdade sexual, certamente sofrerá menos. Há pessoas que chegam em meu consultório totalmente arrasadas pelo fim do casamento e que, depois de algum tempo, sentem-se até gratas ao companheiro pela separação.
    Apesar do divórcio ser comum hoje em dia, as pessoas me perguntam se ele não é visto e vivido como um fracasso pessoal. Sem dúvida, mas essa mentalidade tem de mudar. O fim do casamento não é sinal de que não deu certo. O casal construiu muita coisa junto, quem sabe teve filhos, com certeza viveu grandes momentos. Isso tudo vale e muito. Não é porque acaba que perde a importância. Associar separação a fracasso é sinônimo de preconceito.
    Para algumas pessoas, separar e complicado. Mas por outro lado, existem aqueles que diante do primeiro problema, pulam do barco. Esse ímpeto é mais comum entre os jovens. Existe muita gente que rompe o casamento como se estivesse simplesmente terminando mais um amor. Talvez pelo fato de não terem cultivado uma forte amizade e bem querer, que sustentam o dia-a-dia das relações. Mas existe também a noção de que hoje em dia se vive o descartável. Inclusive no amor e relacionamentos. Então se alguma coisa não dá certo, logo se pensa em separação.
    O que poderíamos dizer então dos casais que atam e desatam mil vezes. Quem de nós já não viu de perto um casal de amigos que ficaram nessa situação? A mim parece uma tentativa de recuperar a antiga acomodação apenas.
    Muita gente diz que não sai do casamento por causa dos filhos. Essa justificativa não é válida e acarretará cobranças mais tarde. O rancor do casal vai amargurar os filhos. Como podem ser felizes ao lado de pais que vivem brigando? Se o casal se separar mais estabelecer um clima de respeito mútuo, os filhos não sofrerão. O pior de tudo é quando um dos parceiros manipula os filhos para se vingar. Neste caso as crianças sofrerão muito.
    Lembrando então, separações sempre são difíceis, mas é possível retomar a vida. Se você está tendo dificuldades, busque a ajuda de um profissional competente

    Por Ieda Dreger. 

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